Sobre


Sobre o Artista

 

 

José Roberto Amin, nasceu em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, em 1948. Reside e  trabalha  na capital Campo Grande, desde 1979. É graduado em Medicina (1974) e Membro  Titular da  Academia de Medicina de Mato Grosso do Sul, iniciando sua carreira nas artes    plásticas em 1988.

 


 

A pintura de Amin 

Quando Amin está em frente a uma tela branca é como se ele estivesse diante de seu próprio destino. Ele não sabe o que acontecerá, mas tem consciência de que ali nascerá uma nova realidade mediante imagens que preexistem dentro dele, em alguma região oculta de sua sensibilidade e que aflorarão desde outra planura. A sua missão como artista e como indivíduo é torná-las visíveis, tarefa que lhe é exclusiva porque tem a marca de sua identidade. Ao fazê-lo, eleva o que não se podia ver antes ao estado de mistério através da matéria pictória.

A poética de Amin tem seu fulcro no invisível, gerado, todavia a partir de elementos imprecisos da realidade, dos quais ele é avesso sensível, e se materializa mediante um sistema que tem como elementos constituintes a forma, a cor, o ritmo e a textura. Este processo leva-o ao “êxtase de criar”, segundo suas próprias palavras. E “Criar é se criar”, como afirmou Joseph Beuys, ou “matar a morte”, como escreveu Roman Rolland. Criar é certamente, o ato mais elevado do ser humano. E nunca foi uma tarefa de enfermos. Ao contrário: “Art is a garanty of sanity” na lúcida expressão de uma artista sábia em todos os sentidos, Louise Bourgeois.

Médico por formação, não nos estranha que Amin tenha abraçado a arte como atividade paralela, já que a medicina é reconhecida há séculos não apenas como uma ciência, mas também como arte – daí a expressão latina ars curandi – já que, na expressão de Miguel Couto, “não existem doenças e sim doentes”, e cada paciente requer um atendimento personalizado, frequentemente criativo. Não é por acaso que muitos médicos se transformaram em pintores como é o caso dos brasileiros Jorge de Lima (também poeta), Aldir Mendes de Souza e tantos outros.

Amin cria no terreno da abstração sensível, espaço descortinado por Kandinsky há cem anos e que conferiu autonomia à pintura, libertando-a de conteúdos literários. A corrente da pintura-pintura, que tem como assunto a própria pintura, conheceu desdobramentos notáveis no exterior e também no Brasil, sobretudo com Manabu Mabe. A obra abstrata de José Roberto Amin, que começou a ganhar corpo há vinte anos, é verdadeira poema visual, atinge no presente um estágio de amadurecimento inquestionável em relação a sua trajetória e se afirma como uma pintura ao mesmo tempo vigorosa e sensível.


 

Enock Sacramento.
Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte
São Paulo, novembro de 2009

 


 

Do Céu a terra.

Em janeiro passado ao selecionar vinte e um artistas para a exposição que denominei Abstratos, apresentada em março na Nova André Galeria de São Paulo, escolhi três pinturas de José Amin. Não conhecia o artista como não conheço a maioria dos que selecionei.

Fiel à filosofia de trabalho que tem caracterizado minhas curadorias alinhei ao lado de artistas consagrados como Mabe, Fukushima, Wakabayashi e Othake, artistas em processo de desenvolvimento e emergentes.

Isso permitiu uma leitura que se inicia em 1989 com Kazuo Wakabayashi, passa em 1992 por Tomie Ohtake, em 1997 por Tikashi Fukushima em 1998 por Manabu Mabe e termina em 2001 com José Amin.

Através das telas pintadas nesses doze anos pode-se ver as múltiplas direções que o Abstracionismo seguiu e segue até hoje. As várias visões, estilos e tendências que se aproximam e se distanciam da origem kandiskyana.

Às vezes o que resta é apenas o conceito de abstrato. Conceito que Michel Seuphor, teórico e exegeta do Abstracionismo definiu assim: “arte abstrata é toda arte que não contém qualquer apelo, qualquer evocação da realidade, seja ou não a realidade o ponto de partida do artista”.

Radical até as últimas consequências Seuphor reduziu a realidade ao nada, ao zero. Até que ponto essa redução absoluta é possível e pode ser considerada? Acredito que Kadinsky não saberia responder. Em muitas de suas abstrações a presença da realidade está mais do que visível, presente. Está ali. Facilmente identificável.

Gostaria de estender-me sobre o tema, mas embora correlato meu assunto aqui é a pintura de José Amin. Para o folder de Abstratos, mencionada no início deste texto, selecionei de José Amin Composição F628/01, de 2001. O artista pintou a óleo, sobre tela. Quem pinta sabe que o suporte, sobre tela. Quem pinta sabe que o suporte, no caso a tela, faz diferença. Mede 130x110.

Trata-se de uma pintura em que as terras, os ocres, os sienas, os vermelhos, os carmins diluídos contrapõem-se aos marrons claros e escuros, aos pretos. Centralizado, um núcleo massivo domina o espaço em volta do qual manchas sutis evoluem.

Aliás, a pintura que José Amin está fazendo um ano e meio depois dessa a que me refiro lembra muito espaço sideral. Nas composições em que predominam os azuis, os cinzas ou aquelas em que os ocres, terras e carmins dominam, não é difícil ver superfícies lunares, desertos e crateras.

É o que vejo ou penso que vejo. Isso porém não significa que o que vejo ou penso que vejo seja o que é. Cada um verá na pintura de José Amin aquilo que sua memória visual, seu inconsciente ou consciente escolher, determinar e associar.

Em seus escritos Kandinsky conta que a música foi fundamental, essencial na concepção do Abstracionismo. Chama suas pinturas de composições musicais que ouvia. Há uma tela Impression III (concert) de 1911, um óleo sobre tela, de 77,5 x 100cm, abstrata, em que se pode ver uma mancha preta , um piano e o público em manchas e traços em cor essa pintura está na Stadtische Galerie im Lenbachhaus em Munique. Hoje sabemos do que se trata, mas por muito tempo só se viu as manchas.

Quem sabe algum dia saberemos o que existe da realidade por trás das composições abstratas de José Amin. Será que céu azul, imenso, limpo de Campo Grande tem a ver com elas? Ou não significa nada. Talvez um dia saberemos.


 

Carlos von Schmidt
Curador e Crítico de Arte
São Paulo, 5 de setembro de 2002